O Dourado Escritor do Deserto (Parte I)

264d586313e88dccfc0ef8c3cf7580deEra uma noite atípica no deserto, os fortes ventos que estavam previstos para aquela noite nem sequer davam sinal. A lua brilhava solitária sobre um vasto tapete de areia, e as estrelas pareciam estar demasiadamente tímidas e longe uma das outras para serem notadas.  Mais ao sul e sobe aquele mesmo céu, deslizava tranquilamente do ventre de sua mãe uma quieta e doce criança, tão quieta e tão doce quanto os afáveis ventos que sussurravam a porta do agraciado casal. O bebê nem sequer chorava, tinha olhos tão escuros quanto à noite e fios de cabelos dourados como os raios de sol. O espanto da mãe ao ver os reluzentes e finos fios de cabelo do bebê era claro, já tinha ouvido falar de crianças cujos cabelos eram feitos de ouro, mas aquilo não passava de uma lenda. O pai nada disse, embalou a pequena criança no colo e cantarolou uma doce música à medida que ia levemente contornando com um pano a cabeça da criança.

A criança recebeu o nome de Yasir, e estava fadado a usar um turbante sempre que fosse sair de casa. A mãe sempre lhe alertara que expor sua cabeça despertaria inveja por cada canto que passasse, e que sua vida poderia estar em risco caso isso ocorresse.  A preocupação dos pais e o constante uso de um turbante surrado não incomodava o garoto, gentileza e um belo sorriso no rosto garantia ao jovem a simpatia de todos da região.  Yasir passava a maior parte do seu tempo na rua, adorava conversar com pessoas mais velhas e ouvir suas histórias, perdia a noção do tempo quando ouvia uma boa e antiga narrativa. Histórias a muito desacreditadas pelas pessoas eram as suas favoritas, e por mais chatas e desinteressantes que parecessem às outras crianças, o jovem sempre tinha cortesia de ouvir até o final.

Yasir, sua família, e principalmente o seu segredo, pareciam estar seguros naquela pequena e pacata cidadezinha onde moravam, até que o acaso cuidou de destruir tudo. A cidade em que o jovem morava foi saqueada por uma horda de bandidos, em meio a toda a confusão Yasir perdeu o velho e esfarrapado pedaço de pano que tratava de lhe esconder os dourados fios de cabelo, apesar dos malfeitores terem sido pegos e levados à justiça, o pobre garoto teve o seu segredo revelado diante de todos da cidade. Após o ocorrido, Yasir foi chamado de “O Menino Sol”, todos na cidade queriam vê-lo, fosse pela beleza dos seus dourados cachos, ou pela riqueza que um único fio poderia trazer. Devido à urgência do acontecido, Yasir e sua família foram forçadas a abandonar a cidade e viver como nômades, migrar de cidade em cidade permitiria que o segredo fosse mais bem protegido e asseguraria a proteção de toda a família.

Agora, Yasir e sua família não passavam mais que um ano nas cidades por onde passavam. O pai do garoto arrumava serviços esporádicos em cada cidade, sua mãe tratava de cuidar dos afazeres domésticos, e o garoto tentava de esquecer do dia em que foi chamado de “Menino Sol”. Cada vez que o pai chegava do trabalho trazendo-lhe algo para ler, fossem livros ou qualquer tipo de coisa que pudesse ajuda-lo a passar o tempo, era motivo de muita alegria para o garoto, já que suas caminhadas pelas ruas eram cada vez mais raras e muito mal vista pelos pais. Quando não achava algo que pudesse ler, Yasir passava o seu tempo transcrevendo para um pergaminho as histórias que acumulara ao longo da sua juventude, os fatos que lhe aconteceram, ou até mesmo quaisquer pensamentos que lhe tivesse ocorrido.  Os pais de Yasir não gostavam nenhum pouco da vida que estavam levando, tinham saudade de sua cidade Natal, também lhes cortavam o coração ver as condições que sua superproteção acabara impondo ao jovem.

Já fazia muito tempo que a cidade natal do jovem Yasir tinha ficado para trás, e agora ele e sua família haviam mudado de cidade pela sétima vez. O pobre jovem já havia se acostumado como a monótona vida que leva, o ponto alto do seu dia se resumia a esperar que o pai ao chegar do trabalho, lhe trouxesse algo para ler ou algum pedaço de pergaminho que ele pudesse rabiscar. Sonhar com um espaço em branco para escrever ou com livros para ler foi toda a ambição que restara, para o a muito esquecido Menino Sol. Havia uma data em especial que Yasir poderia almejar objetos mais sofisticados, em cada dia do seu nome os pais faziam esforço para lhe presentear com algo útil e duradouro. O garoto já acumulara, dos dias do seu nome, um livro, um tinteiro, uma pena de abutre e alguns rolos de pergaminho. Mas a essa altura, o livro já havia sido lido mais de uma vez, no tinteiro já quase não havia tinta, a pena estava a muito desgastada, e dos rolos de pergaminho já não era possível tirar espaço para escrever.

No décimo sexto dia do seu nome, Yasir encontrou sobre a mesa do seu quarto um lindo turbante escarlate, uma pena de gavião, um tinteiro, um grande rolo de pergaminho e uma carta com os dizeres:
 “A muito temos percebido a sua aflição e sofrido silenciosamente com você, sabemos que uma mente inquieta nunca vai se adequar a livros repetidos e pergaminhos com mais espaços em branco do que histórias para contar. Sinta-se livre para escrever tudo o que seus olhos forem capazes de ver, e o que suas mãos ainda possuam forças para registrar.”
Ao ler a carta os olhos escuros do menino sol se encheram de lágrimas, na medida em que seu coração se enchia de liberdade. O jovem Yasir sabia exatamente o que tinha que fazer, sabia também qual era o propósito daqueles outros objetos que recebera carinhosamente de seus pais. Enquanto enxugava os olhos, foi vagarosamente colocando o turbante sobre seus densos cabelos dourados. Quando todos os reluzentes fios se esconderam sobre o turbante, soube que chegara a tão esperada hora de partir e conquistar o mundo.