O nascer da tempestade

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    O sol começava a sumir escarlate no horizonte da savana de Mêzurik, enquanto o bando das hienas de Crocuta inicia o seu ataque a um grupo de hienas do clã de Proteles. As guerreiras de Crocuta marchavam calmamente sobre a vegetação rasteira, mirava o grupo inimigo individualmente e tomava nota de suas possíveis ações. Cada hiena de Crocuta ria mentalmente, mas do lado de fora de suas cabeças, o silêncio era quem reinava soberano. Já as hienas de Proteles caminhavam rumo à morte sem temer, não tinham muita esperança de escapar do escárnio que ecoava através das risadas que não podiam ser ouvidas por elas, mas isso pouco importava.

De cima de uma árvore um pouco distante, Shakta olhava o que num futuro seria chamado de carnificina. A imponência da sua postura parecia subjugar o sol, que agora estava parcialmente coberto pelo horizonte. O vento surgia acanhado e aos poucos ia anunciando o cheiro de carne fresca pronta para o abate. Shakta gostava de qualquer tipo de cheiro, vivo, e podia distinguir qualquer criatura por ele. A vida já havia tratado de deixar gravados diversos tipos de aromas em sua memória, mas se tinha um em particular que ela conhecia, eram os das hienas de Proteles.

Quanto às hienas de Proteles, coragem não lhes faltava, e isso era sabido por qualquer uma das hienas. Shakta as viu se juntando ao redor de uma grande guerreira, suas mãos carregavam uma grande lança com símbolos tribais desde a ponta até sua base. A hiena se destacava dentre as outras, era visivelmente uma exceção. Sem ordenar nada para suas companheiras, Shakta pulou habilmente da árvore e sacou sua espada antes de pousar ao solo.  Seu bando já havia sentido toda a sua intenção. Unidos desde sempre, tinham uma conexão pura e totalmente selvagem.

– Estão prontas, minhas irmãs? – perguntou Shakta, sentindo que sua pergunta ao menos fazia sentido. Suas irmãs puxavam o ar fortemente pelas narinas molhadas, pareciam estar entrando num transe total.

– Vamos manchar essa terra com sangue! Vamos fazer com que o vermelho seja o limite entre o medo e o terror! – disse Keeva, sua irmã e líder do segundo escalão, mexendo as orelhas involuntariamente.

Shakta correu de braços aberto olhando para o céu, pedia para que chovesse sangue sobre ela. A vegetação em sua maior parte cobria seu corpo quase que por inteiro, e a líder das hienas de Crocuta agora se encontrava correndo de forma feral, suas mãos e pés marchavam pela vegetação em busca de carne para dilacerar. Suas irmãs seguiam seu ritmo, agora marchavam em uníssono e com o mesmo objetivo.

Seu bando foi de encontro às inimigas, que andavam agachadas a sua espera. Shakta já havia enterrado sua espada sobre o peito de uma, agora, vorazmente, voava abocanhando o pescoço de outra hiena de Proteles. O impacto havia quebrado o pescoço da vítima, que ao menos conseguiu ver o que a fez transbordar em rios sangue. As garras de sua mão esquerda estavam em perfeita sincronia com sua espada na mão direita, e assim seguia Shakta, desferindo golpes com a mão esquerda só para ter certeza que sua espada havia feito o trabalho corretamente. Suas irmãs de guerra levavam terror aos inimigos, que só enxergavam a morte quando conseguiam ver algo. Já estavam no meio da resistência, e nenhuma baixa havia ocorrido. Todas tinham sangue inimigo escorrendo de suas mandíbulas, e nenhum arranhão se quer como lembrança da chacina que começara.

Sabendo que poderia confiar sua vida aos companheiros, Shakta partiu rumo ao prato principal, e a hiena gigante também já havia escolhido o seu alvo. A grande hiena de Proteles fintava sua grande lança sobre os ombros e ofegava sedenta por sangue inimigo, fazendo o coração de Shakta vibrar de êxtase. A esse momento o sol já deveria estar parcialmente extinto sobre o horizonte e o vento, agora, trazia com mais propriedade o cheiro de sangue.

O corpo de Shakta já não mais lhe pertencia, o êxtase já havia assumido o controle e seu sangue pulsava fervoroso por entre as artérias. Ao se entreolharem, a gigante franziu a testa, nunca ninguém havia lhe encarado com tal imponência.

– Você tem nome? Demônio banhado em sangue – perguntou a grande hiena.

E nenhuma resposta foi ouvida. Shakta já não era capaz de ouvir nada proferido pela grande hiena listrada, estava em plena conexão com a voz que gritava em sua cabeça – Mate-a, Mate-a, faça jorrar sangue! – dizia sua consciência selvagem.

– Não sabia que os demônios não conseguem falar! – dizia impaciente, a gigantesca hiena – Sou Kzára, líder das hienas de proteles, aquela que vai acabar…

Já era tarde para Kzára, sua cabeça estava presa ao corpo por uma pequena camada de pele. Shakta havia decidido ouvir a voz que gritava em sua cabeça. Em um curto período de tempo já tinha sacado uma segunda espada com a mão esquerda, e aplicado sem nenhuma perícia, mas sim com muita força, um golpe sobre a líder inimiga. Em um misto de brutalidade e rapidez, as duas espadas haviam surgido como uma hélice, dilacerando o pescoço da gigante Kzára.

 Atender ao pedido incessante de sua cabeça parecia ter libertado Shakta do seu estado de êxtase. Agora ela procurava suas guerreias ao longo do horizonte, uma por uma. Era possível ver muitas hienas banhadas em sangue inimigo.  Localizando suas guerreiras, Shakta constatou o que já era de se esperar, todas as vinte que haviam decidido partir para com o objetivo de defender os limites das terras de Crocuta, estavam ali. Não havia perdido nenhuma de suas irmãs, apesar de algumas estarem feridas.

– Retirem tudo dos corpos desses cães listrados de orelhas grandes, depressa – ordenou Keeva – Vamos retornar.

– Façamos isso já, não queremos dar de cara com leões – disse uma das hienas do segundo escalão. – A batalha não será nenhum pouco igual a essa.

Metais valiosos, vestes e armas eram bem vindos para substituir armas danificas e realizar trocas. Não havia sido uma batalha com espólios lucrativos, mas os limites de seu território haviam sido reforçados mais uma vez. Todos agora partiam rumo a Crocruta, recolheram tudo o que lhes interessavam e rumaram rapidamente para casa.

Na madrugada seguinte, Shakta e seu bando chegavam ao centro de Crocuta para reportar o ocorrido. As hienas que carregam pouco peso estavam incumbidas de ajudar suas companheiras feridas a se dirigirem ao curandeiro. Enquanto o resto do grupo deveria levar espólios recolhidos para a triagem, com exceção de Shakta.

Á medida em que chegavam ao centro, Shakta ouviu um grito se sobressair por entre a brecha de uma tenda, sentiu seu coração pulsar mais forte, lembrara-se de algo importante. Sua genitora acabara de prover mais um filhote, mas a morte caminhava vigilante com os pequeninos, disso Shakta sabia bem. Esperava do fundo da alma que fosse uma fêmea. Precisamos de mais força, e uma fêmea vigorosa carregaria isso dentro si por natureza.

Podia ouvir seu coração bater mais forte ao ritmo que se aproximava da tenda. Shakta entrou eufórica na tenda, seus olhos e orelhas buscavam em conjunto a fonte do som que ouvira de longe. Sua genitora e matriarca do clã observava o filhote, que chegara recentemente ao mundo, dar seu primeiro passos no canto da tenda.

Shakta não conseguia pronunciar nenhuma palavra se quer, precisava saber imediatamente quem era o mais novo membro do clã. Apanhou a pequena criatura pelos pés, colocando-a de cabeça para baixo.

– É uma fêmea, não se preocupe – disse a matriarca do clã.

– Claro que é! – exclamou Shakta, ainda segurando o filhote de cabeça para baixo.

A vontade da matriarca era que Shakta pusesse o filhote de volta ao chão, ele precisava se alimentar. Shakta olhava meticulosamente todos os traços do filhote, sabia que algo estava errado, mas não sabia o que era.

– Ela é uma fêmea de pele negra, andará lado a lado com a morte – disse a matriarca – É uma cor rara de se ver hoje em dia.

O filhote era negro como a noite da savana. Suas manchas, característica marcante das hienas de Crocuta, quase não podiam ser vistas. Mas como todas as hienas, tinham presas fortes e afiadas.

– Achei! Ela tem a mesma mancha que eu – afirmou Shakta, orgulhosa da semelhança – bem por cima do olho esquerdo, será uma grande guerreira.

Shakta não havia prestado a mínima atenção nas palavras da matriarca, estava muito ocupada procurando outras semelhanças. Encenava golpes e acrobacias com o filhote, não via a hora de dividir um campo de batalha com sua nova irmã e futura guerreira de Crocuta.

– Coloque o filhote no chão e venha em direção à bacia – disse a matriarca – você jogará os ossos, espero que um bom destino esteja reservado para essa pobre criatura.

Shakta fez o que lhe foi pedido e repousou o filhote no chão, enfiou a mão em um saco cheio de osso com diversos tamanhos. Dependendo da posição que caíssem, atribuía-se a forma á um animal, havia inúmeras possibilidades de combinações. Só os mais velhos e experientes na arte Shaman, poderiam ler o que os ossos representavam. Os ossos poderiam trazer qualquer tipo de presságio, mas a veracidade da informação dependia grande parte do espírito de quem jogaria os ossos.

Shakta jogou cinco ossos na bacia de madeira, e a velha matriarca respirou fundo quando eles pararam.

– Quatro hienas e um elefante! Vejo que liderança e força não serão problemas para essa guerreira – consentiu a velha matriarca.

Shakta observava com muita atenção o filhote, que agora se alimentava do leite oferecido pela matriarca. A mais nova guerreira também tinha olhos negros, quase como um eclipse total. Os ossos tinham anunciado boas qualidades para a pequena criatura, e por isso, parte da preocupação havia abandonado os olhos da matriarca.

– Tem algum nome na cabeça, Shakta? – perguntou a matriarca.

– Claro! Velha mãe – respondeu Shakta, sem hesitar – Ela se chamará Mamba. Será inabalável como o nosso clã.  Trará tempestade aos que se aproximarem.

A velha matriarca riu. – Vamos lá pra fora então, todos precisam conhecer Mamba!