O pastor de estrelas

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Caminhava pelas estrelas e sabia o nome de todo o seu rebanho, na terra, era conhecido como “Andarilho Estelar”, ou mais comumente como “Pastor de Estrelas”. Abel era um garotinho de cabelos brancos, que tinha a simples tarefa de vigiar e cuidar de todas as estrelas do céu.

Mas o céu não era mais o mesmo de ontem, disso Abel tinha certeza. O pobre garoto decidira contar novamente, agora pela décima vez. Começando por Antares conferiu toda a constelação de Escorpião, descobrindo assim, que seu amigo ainda se fazia presente no céu.

-Ufa! Ao menos você ainda está aqui, meu amigo – suspirou o garoto.

– Para onde mais eu iria? – Perguntou o escorpião – Estou neste mesmo lugar, muito antes de você existir, menino – continuou pausadamente.

O jovem rapaz seguiu ligeiramente para a próxima constelação. Com olhos distantes, conferia exaustivamente todas as estrelas que encontrava.

-Olá, pela décima vez, meu caro amigo – disse o Cisne – Não é que eu não goste da sua presença, mas acho que alguém prometeu deixar minhas asas mais brilhantes.

O garoto seguiu aflito, nada disse ao cisne ou a qualquer outra constelação seguinte. A procura por cada estrela era minuciosa, cada estrela encontrada gerava segundos de alegria e logo dava lugar a um vazio penetrante.

– Até aqui está tudo bem – repetia constantemente para si mesmo.

– Não precisa conferir minhas estrelas pela quarta vez. Eu sou uma constelação primordial, peço que não me insulte dessa forma – disse uma calma voz, que parecia surgir de lugar algum.

A misteriosa voz trouxe clareza aos olhos do garoto, que pararam de se mover mecanicamente sobre as estrelas da constelação de Libra. Prontamente, as mãos do garoto abriram o livro que ele carregava a muito, sem perceber. “As estrelas primordiais jamais desaparecem do céu, suas estrelas estão fadadas a brilhar eternamente. ”, dizia a anotação no rodapé da última página do livro.

– Como pude esquecer? – Disse Abel, deixando que brotasse um sorriso no canto do seu rosto.

– Conte quantas vezes quiser, as estrelas secundárias irão continuar desaparecendo, é um fim natural – disse a balança.

Já não havia sorriso no rosto do garoto, a preocupação voltara a tomar conta do pobre rapaz. Abel conhecia todas as suas estrelas e sabia exatamente o lugar de cada uma delas, porém, sabia que era inútil continuar contando, algumas realmente haviam desaparecido.

Era sabido de que em tempos e tempos, algo inevitável acontecia. As estrelas, por mais brilhantes que fossem, perdiam o seu brilho gradativamente e tinham como sina o desaparecimento. Esse momento era o mais difícil para Abel, ver o sofrimento de suas amigas a mediada que perdiam seu brilho lhe causava muita dor. Os terráqueos comparavam a morte de uma estrela com a queima de uma linda flor, onde toda sua beleza ia sendo queimada gradativamente até virar pó.

– Desista garoto, continue o seu trabalho. As estrelas voltarão se tiverem que voltar, isso não está em suas mãos – continuou a balança, calmamente.

Isso não é verdade, deve haver algum jeito! Não é possível que isso só dependa daqueles bárbaros! – Disse o jovem, olhando para baixo e sentindo fortemente pelo desaparecimento de alguns dos seus companheiros.

– Bárbaro ou não, só eles têm o poder de trazer uma estrela de volta. Se eles perderam a fé nos céus, é questão de tempo até que só restem poucas de nós, aceite! – Respondeu calmamente a balança, porém mais firme que dá vez anterior.

– Claro que não está preocupado! – Disse o garoto, sem perceber que havia aumentado subitamente o tom de voz. – A sua existência não está relacionada com os desejos daquela raça. Vai ficar aí para sempre, querem eles acreditem ou não.

– Garoto, não fala como se fosse muito diferente dos que vivem no chão – disse a balança, mantendo-se calma. Sei que fala deixando-se levar pelo calor de suas emoções, volte a cuidar das estrelas que ainda restam e aproveite cada segundo do seu precioso brilho…. Antes que todas se apaguem.

O tempo foi passando e as estrelas continuavam desaparecendo gradualmente. Abel ainda estava inconformado com o desaparecimento de suas queridas estrelas, mas continuou fazendo o seu trabalho. Cuidava das estrelas mais debilitadas, chamava a atenção das mais bagunceiras, ordenava as mais jovens e sempre alinhava todas as constelações. As estrelas eram suas únicas companheiras desde sempre, e como estava predestinado a passar a eternidade no âmbito celeste, se via mais solitário a cada segundo.

Os cuidados diários de Abel eram minuciosos, nenhuma estrela era esquecida. Apesar de todo o esmero, de tempos em tempos uma estrela ficava tão debilitada que o seu único destino era o desaparecimento. O garoto achava que ver o brilho de uma estrela se ofuscando era inconcebível.

Apesar da angústia de ver seus amigos morrendo, Abel mantinha a fé de que mais cedo ou mais tarde algum terráqueo iria ver o brilho da estrela se apagar e logo faria um pedido. Além da beleza de seu brilho, as estrelas mantinham uma característica singular, voltavam a vida ressurgindo como fênix, se no momento em que seu brilho estivesse sendo apagado na terra, alguém fizesse um pedido.  Essa peculiar característica deixava Abel muito esperançoso, era muito provável que logo suas amigas voltassem à vida.

Por muito tempo a terra foi uma fonte de admiração para Abel, mas a sua gratidão para com os humanos foi se transformando em desprezo.  Abel tinha poderes incríveis, era capaz de fazer de tudo em seu território. Contudo, a única coisa que lhe causava tristeza era a impossibilidade de trazer as estrelas de volta a vida. O dom do desejo havia sido negado ao garoto, e junto com isso a impossibilidade de cruzar a fronteira entre o céu e a terra sem que abdicasse de seus poderes para sempre.

Na medida em que o tempo foi passando, mudanças extremas no céu e na terra foram acontecendo.  Os humanos estavam indiferentes uns com os outros, o egoísmo e a individualidade cresciam incessantemente, acreditar na simplicidade das coisas havia se tornado trivial. Achar alguém que acreditasse nas estrelas era quase impossível, e isso foi repercutindo mais e mais pelas gerações futuras.

Depois de tanto tempo, Abel ainda continuava vigiando e cuidando das estrelas, mas já não lembrava a última vez que uma de suas estrelas voltou após se apagar. A situação preocupava o garoto, que sentia falta de suas velhas amigas. Seu desprezo pelos humanos só aumentava, à medida que sua sensação de impotência crescia.

Ao ver o brilho de mais uma de suas amigas se esvaindo, Abel sem pensar duas vezes decide abdicar dos seus poderes celestes. Atravessa então a barreira proibida entre o céu e a terra, trocando todos os seus poderes pela possibilidade de fazer desejos.  Desse dia em diante, Abel passou a acompanhar suas queridas amigas de longe, de um lugar muito conhecido, mas nunca antes visitado por ele.