O presente do Ártico

O Presente do Ártico(Imagem: Mariyumi)

 

Era verão, e a visibilidade da tundra que circundava toda a aldeia esquimó ficava melhor a cada dia. A chegada do verão trazia consigo alimento. Em tempos mais frios era quase impossível caçar, os mais ávidos pela comida se deparavam com uma grande nevasca e normalmente voltavam de mãos vazias. O Deus Sol trazia consigo a vida, e era reverenciado com um festival de caça até a volta do rigoroso inverno.

As garotas esquimós ansiavam muito por essa época do ano, onde a vegetação ia se sobressaindo lentamente e os pedidos de casamento eram mais comuns. Yukit, uma linda jovem esquimó, estava prestes a se casar. A pressão sobre a garota era muito grande, suas três irmãs mais velhas já haviam se casado, e sua velha mãe ansiava há muito por esse dia. Apesar de estar feliz por ter encontrado o suposto homem da sua vida, o ser com quem queria passar o resto dos seus dias, estava um pouco desconfiada da veracidade do sentimento que ele tinha por ela.

Para esquecer seus pensamentos e aliviar toda a pressão do eminente casamento, Yukit levantava cedo todos os dias para visitar o velho Salgueiro. O Salgueiro era a árvore mais velha da sua região, uma das poucas árvores em toda a vasta extensão da sua vila, estava situada às margens do rio Dukh. Durante o verão, o salgueiro resplandecia magnificamente, seus ramos que antes estavam cobertos por neve, eram agora vistosos e de coloração viva. Já o rio, não era muito grande e ficava congelado quase todo o ano.

Segundo as lendas, o rio congelado era mágico e abrigava uma vaidosa bruxa amante de presentes mundanos. A bruxa era retratada pelo povo esquimó como sendo dona de grandes cabelos negros e uma pele extremamente pálida. Era temida por seus grandes poderes, mas exaltada por sua grande sabedoria. Nunca ninguém pôde comprovar a sua existência, fazendo com que todos os relatos não passassem de mera superstição.

Em um de seus passeios, ao chegar às margens do rio Dukh, Yukit se sentou ao chão e pôs-se a admirar o gélido lago. Passou quase todo o seu dia admirando o rio, pensava se o matrimônio que lhe aguardava era desejado verdadeiramente por ambas as partes, e, se aceitá-lo de prontidão era a melhor escolha. Vendo que já passara da hora prevista, levantou-se do chão e partiu para casa. No caminho de casa, as dúvidas não lhe abandonaram, martelavam sua cabeça e traziam à tona todas as fontes de suas dúvidas.

Na manhã seguinte, véspera de seu casamento, Yukit acordou decidida, pegou seu melhor colar e rumou para o salgueiro. Na noite anterior, antes de dormir, havia pensado incessantemente sobre a bruxa que vivia no lago e todas as lendas que sabia sobre ela. Chegando ao salgueiro, pegou seu colar e foi até a beira do rio. Yukit estava certa de que a bruxa iria adorar sua oferenda, o colar estava na família a gerações e era bem valioso. Apertou o colar na mão e estava prestes a arremessa-lo, quando percebeu que o rio ainda estava congelado. Uma camada de gelo grosso ainda cobria o rio e se afinava gradativamente a medida que se afastava da margem, talvez fosse só esperar mais um dia e o lago estaria parcialmente descongelado.

Yukit se sentiu totalmente frustrada, quem poderia dar-lhe a resposta mais sábia, se não a bruxa. – Será que devo esperar? E se o gelo não derreter? – Pensava Yukit. A cerimônia de casamento era no dia seguinte, esperar por um descongelamento incerto não era uma opção. Desesperada por respostas, Yukit resolveu tomar a decisão que mais lhe preocupava, pular sobre a parte do rio onde o gelo era mais fino e repetir o feito até que se quebrasse. Olhou atentamente sobre o rio e percebeu que no o centro a camada de gelo era mais fina, o que aumentara a chance de sucesso, mas não diminuía o risco.

Aparentemente sem escolhas, Yukit já havia tomado sua decisão. Chegando ao centro do rio, a jovem esquimó apertou o colar na sua mão e começou a pular sobre o gelo. Em cada pulo, Yukit apertava com mais intensidade o colar, o peso exercido sobre o gelo parecia ficar maior a cada aperto. – Apareça, ó bruxa! Trago-lhe um agrado, responda minhas inquietações – dizia Yukit a cada pulo. A esquimó já estava pulando por muito tempo, seus questionamentos sobre o casamento só aumentavam, suas forças se esvaiam pelos pés a cada pulo. A mão esquerda de Yukit não aguentava mais, sangrava e já não era capaz de pressionar o colar por mais uma vez se quer. Num último esforço, a jovem esquimó pulou, o colar caiu da sua mão diretamente na água fria.

Com a força de seu impulso o gelo havia se partido, antes que percebesse seu colar já havia escorregado de sua mão. Yukit levara um grande susto. Com o choque do seu corpo na água gélida, se deu conta de que havia conseguido, apesar de estar afundando no rio. Não existia mais força em seus braços e pernas, seus pulos incessantes combinados com um brusco aperto no colar, que agora afundava poucos metros abaixo, tinham causado toda essa sensação de impotência debaixo d’água.

Yukit ia afundando lentamente, já não conseguia avistar o colar, seus braços e pernas não obedeciam ao grande esforço que ela pensava estar fazendo. – Será que isso tudo foi em vão? Apareça Bruxa! Antes que eu morra, deixe-me saber de tudo! – Gritava Yukit, dentro da sua própria cabeça. Sua vontade de saber os verdadeiros sentimentos de seu amado parecia ser mais forte que o medo de morrer. Yukit já não lutava para chegar à superfície, sua meta era ficar consciente até que a bruxa lhe trouxesse respostas, então poderia morrer em paz.

O peso de suas pálpebras ia contra sua vontade de ver, quando eis que uma luz surge ofuscando toda a esperança de enxergar algo. Após recobrar a visão, a jovem se depara com uma moça de cabelos negros e pele pálida, a bruxa de quem tanto queria um conselho. Antes que a jovem esquimó pudesse pensar em algo, foi novamente atingida por um feixe de luz.  Ao recobrar os sentidos, a jovem se deu conta de que a bruxa havia desaparecido, percebeu também, que ainda estava no fundo do rio e no lugar das suas pernas, agora haviam grandes nadadeiras.

Desesperada e sem saber o que fazer, a jovem emergiu até a beira do lago e pôs-se a chorar. Com sua mobilidade terrestre comprometida, a jovem resolveu esperar que um socorro chegasse ou que o efeito do feitiço fosse anulado. O sol ia se escondendo no horizonte e logo as pessoas do seu vilarejo sairiam a procuram da jovem esquimó.

Horas e horas se passaram, até que Yukit avistou um rosto conhecido. Três mulheres se aproximaram da jovem, e ao ver sua terrível condição se assustaram. A jovem estava feliz por perceber que as três moças eram do seu vilarejo, e mais feliz ainda pôr compartilhar o mesmo sangue que elas. Na medida em que as mulheres se aproximavam, a jovem esquimó parecia mais constrangida por ter que se apresentar daquela forma. Ao chegarem muito próximo, as mulheres nada disseram e partiram rumo ao vilarejo para buscar mais ajuda.

Yukit ainda estava assustada com sua metamorfose, estava naquela condição e ao menos teve o direito de falar com a terrível bruxa. Minutos depois, as mulheres voltaram, e com elas trouxeram cinco jovens rapazes. Os rapazes traziam uma enorme rede, e sem pensar duas vezes lançaram-na sobre a jovem esquimó – Não irá escapar espírito maligno! Sereia desprezível! – gritavam os homens. Sem entender o que estava acontecendo, a sereia clamava por socorro e tentava fazer com que ao menos uma das mulheres se recordasse dela.

Sem sucesso, a jovem esquimó foi levada de volta ao vilarejo amarrada em um tronco. Todos da vila correram para ver a besta marinha apanhada pelos rapazes. Logo, o tronco estava cercado por olhares curiosos em direção à criatura. – Me libertem! Sou eu, Yukit! – Gritava a jovem esquimó. Todas as palavras que saiam de sua boca soavam mudas para os demais. A vila estava lotada por todo o tipo de gente, e a garganta da jovem esquimó doía de tanto tentar se explicar em vão.

Imerso à multidão, um jovem de cabelos compridos se destacava em direção à besta capturada. A jovem sereia esquimó reconheceu no rapaz, os traços da pessoa que mais amava na vida. Seu futuro noivo estava à sua frente, e após perceber o erro que os aldeões tinham acabado de cometer, amarrando a sua futura esposa em um tronco, e a expondo como um animal na feira, correu para a sereia e prontamente cortou suas amarras.

O jovem rapaz escolheu sabiamente as suas primeiras palavras – Eu entendo que agora é uma sereia, mas ainda pretendo me casar com você – dizia o jovem rapaz – mesmo que eu tenha que regressar ao rio todos os dias, mesmo assim, ainda serão os melhores dias da minha vida. As pessoas ali presentes, não conseguiam entender como alguém poderia amar tal criatura. A jovem desatou a chorar, e percebeu o grande erro que tinha cometido ao duvidar do amor que o jovem sentia por ela.

Por um momento, outro feixe de luz caiu sobre a jovem e todos os demais, novamente anunciando a chegada da bruxa. Antes que alguém pudesse dizer algo, a bruxa retirou o feitiço e devolveu o colar à jovem, desaparecendo em seguida, sem dizer nada. Ninguém havia entendido um tantinho sequer, além da jovem, que agora receberá a confirmação do que já estava subentendido.

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